Há que contar o primeiro dia no estágio de cirurgia. Assim que chegámos ao hospital, um dos tutores mandou-nos ler, a cada um de nós, dois dossiers dos doentes, para depois, durante a visita médica, apresentarmos esses mesmos doentes perante toda a equipa. Controlando o pânico (onde estão os dossiers? Não percebo nada desta letra! O que são estas siglas? Como se diz isto em francês? Por que é que os parâmetros laboratoriais estão todos em medidadas diferentes e onde estão os valores de referenciação?) , lá preparei os meus casos e até me desenvencilhei bastante bem. Havia uma coisa que eu não sabia o que era: “selles”, então decidi perguntar a um francês (o giro da turma, loiro, barba, ar cansado sexy de aluno de 6º ano) o que significava. Ele começou-se a rir e explicou-me (até eu conseguir perceber): fezes. Mais tarde, deparei-me com uma sigla que não percebia “TR”, “TR” por todo o lado e por isso perguntei ao mesmo rapaz (porque estava a jeito, só por isso) e ele riu-se de novo. Toque rectal. (Como é que eu não pensei nisso?). Por que é que eu tenho uma tendência cósmica para cair no embaraço?
Mas de facto, é muito complicado ser-se estrangeiro. Não nos tratam como se fossemos pares na mesma situação, de longe. Só me começaram a tratar como igual a partir do momento que o tutor fez perguntas sobre colecistite (diagnóstico, etc.) e eu era a única que sabia dizer qualquer coisa sobre isso. Eles são do sexto ano e têm exame final daqui a quatro meses, se calhar o ensino médico português não é assim tão mau. Mas a partir daí perceberam que eu falava a mesma linguagem – parece que as pessoas às vezes precisam de reconhecer qualquer coisa de familiar, nem que seja conhecimento médico, para terem vontade de fazer ligação. Então conversaram comigo, de onde eu sou, etc, e ficaram a adorar o meu Oxford.
Tenho também uma tendência a ficar sempre com os tutores giros. Calhou-me o chefe de serviço, italiano, 30 anos no máximo, super giro e sexy, não dá para tirar a vista de cima. Acontece que eu tinha reparado que várias pessoas tinham olhado para a minha bata, mas não liguei importância. O que tinha acontecido? Parece que eu e o super giro usamos o mesmo tamanho de bata, e eu sem querer, vesti a dele: dizia bem visivelmente o nome dele e “chefe de serviço”. AH! Que vergonha!
De resto, já percebi que se aprende imenso no estágio. =)
…
(Pai, tinhas razão: os gregos são realmente parecidos com os portugueses). Tenho duas amigas gregas que são umas autênticas tias de Cascais, mas sem tirar nem pôr, até assusta: desde a maneira de falar hiperbolizada ao dedo mindinho sempre muito esticado. Elas têm muita dificuldade em falar francês e começam todas as palavras com o som “zzzz” o que dá uma vontade de rir inacreditável. Elas podem dizer a frase mais séria e neutra do mundo, que toda a gente se começa a rir. A certa altura tenho pena delas, mas é inevitável. Aliás, eu só de olhar para elas me começo a rir.
Foi muito interessante - mesmo comovente – ir ao museu de arte moderna. Fui num domingo e estava a abarrotar. Muitos jovens mas, especialmente, casais jovens com bebés e crianças. Foi realmente bonito ver os pais a explicar os desenhos dadaístas às crianças de colo (que escutavam atentamente!). Havia também montes de crianças deitadas no chão, a preencher o caderninho de um atelier do museu relacionado com a exposição.
Numa conversa com as minhas “colegas de Erasmus” chegámos à conclusão que a proporção 1homem:3mulher nas faculdades de Medicina é constante em toda a Europa. Outra conclusão que retirei desta conversa, é de que infelizmente, o sexismo incutido na cabeça das mulheres (e bem, bem interiorizado) chega a todos os cantos do Mundo: uma das raparigas disse que achava que os homens eram melhores médicos que as mulheres, e todas as outras concordaram. Não consegui reagir, mas a crença de que todo um género é melhor que outro numa competência como a Medicina, sem espaço para dúvidas, entristeceu-me.
Tive um pequeno serão em minha casa e foi muito agradável. O choque cultural da quantidade de alcool que as polacas conseguem tolerar sem sombra de bebedeira é... incrível. Se eu bebesse ao ritmo delas... estava bonita. (A Alsácia é muito famosa pelo seu vinho! Há uma rota de vinhos e tudo :) ).
Luísa, esta é para ti: “Les hommes doivent être comme le café: forts, bons et chauds…”
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Sou a primeira a comentar o teu blog! =)
ResponderEliminarVês?, não custa nada e vai ser mesmo giro para nós irmos sabendo as aventuras que vais tendo e também para ti quando um dia ate apetecer reviver estas memórias fabulosas através da leitura!
Amanhã começamos cirurgia (finalmente!!) e volta o tabalho depois destas longas ferias de dois dias... mas prometo vir passando aqui, nem que seja só para te deixar um beijinho!
Meanwhile, diverte-te!
Teresa
PS: esqueceste-te de reforçar: "não nuninho, eu nao olhei para o prof sex symbol do hospital, só ouvi dizer que era giro...!"
(estive mesmo para revelar a verdadeira identidade do teu esposo mas não se dizem asneiras em público)
Cara Teresa,
ResponderEliminarobrigada pela tua mensagem! =)
não percebi a relação entre a identidade do meu esposo e dizer asneiras, mas devo acrescentar que não fica bem dizer asneiras não só em público, mas em qualquer situação, quando se é uma jovem cheia de classe, como tu és um bom exemplo.
referia-me ao petit-nom carinhoso (?!) dele e de que tu não gostas =)
ResponderEliminarbeijinho
eu sei, ma chére. =)
ResponderEliminarbeijinhos!
" (...) et noirs?"
ResponderEliminaret noirs, porquoi pas? ai, já não se pode fazer uma pequena metáfora :P
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