quarta-feira, 24 de junho de 2009

abraços de despedida

inesperadamente faltam sete dias para me ir embora e só sei que o tempo passou porque já não tenho o meu casaco azul quente, o meu casaco preferido, que quero manter até pelo menos aos meus quarenta anos, quando as costuras estiverem muito velhinhas e alguém me disser que já é uma vergonha, também já não há neve no chão, nem restos de neve suja, e finalmente os dias são longos e reparo mais nas sombras das coisas, estranho ir às festas de despedida porque o tipo de saudades que temos dos sítios e das pessoas não é o tipo de saudade (o quanto tentei eu explicar que esta palavra só existe na língua portuguesa e o quão bonita é, mas nunca me consegui fazer entender, o meu problema de expressão estende-se ao francês,não se pode sentir a falta de uma palavra que não sabíamos que existia) que se ultrapasse com a visita de alguns dias ou com passeios pela cidade a rever as fachadas conhecidas, é uma saudade que custa mas que a queremos por custar porque é só isso que vamos ter, é só isso que vai ficar connosco e por isso é que eu gosto de um poema que se chama ritornello e pensei em tatua-lo na perna mas depois pensei - afinal o que fica connosco fica mesmo connosco ou não fica? é que se fica não quero a tatuagem para nada, prefiro fazer tatuagens atrás das nuvens alguma coisa que parece já ter começado em mim quando era pequena porque antes de adormecer pensava como era estranha a sensação de daí a nada ser um novo dia e tentava aguentar com força essa sensação, prendê-la a mim para poder acordar com a surpresa de "ah, pois é, tinha razão, é tão rápida a transição de um dia para o outro" então fixava bem as texturas das colchas, o desenho das cortinas e a claridade sobre os meus braços, vou ter saudades da Ania e de querermos sempre beber café take away ao pé da faculdade antes das aulas e não conseguirmos nunca chegar a faculdade sem termos entornado todo o café pela roupa e pelo chão por sermos as duas tão desastradas, a minha gémea polaca, não quis que eu lhe desse um abraço na sua última noite, porque ia começar a chorar e lembrei-me de como já tinha ouvido isso uma vez, outros braços. lembro-me de no início ter perdido a fome porque tinha medo - eu que nunca fico saciada - mas rapidamente passei a adorar o medo, agora o dia só me parece completo quando faço qualquer coisa que me mete medo, tão bom, sentir o desafio, ultrapassa-lo, crescer, é quase fazer batota pôr-me assim perante as situações que temo, mas ao mesmo tempo não há nada que me possa dar vitalidade como esta, talvez faça o mesmo que já vi fazer no Danúbio e atire uma garrafa com uma mensagem a este belo afluente do Reno

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