segunda-feira, 20 de abril de 2009

Burros, Cavalos e Antropologia Franco-Escandinava

Passei de burro para cavalo: de um estágio onde nada aprendi e onde ninguém se interessava pelos alunos - cirurgia geral, para um estágio com uma equipa muito querida e atenciosas que me está sempre a ensinar e me deixa fazer imensos exames clínicos e dinâmicos. Falo de Urologia, especialidade que - faça o que fizer - não se solta jamais do seu cunho ligeiramente cómico, mas que é muito interessante e simpática, direi mesmo. Hoje, por exemplo, expliquei ao simpático interno argentino que precisava de aprender (objectivo do estágio) a examinar bolsas testiculares. Eram nove horas da manhã, o que significa que passei as seguintes três a examinar bolsas testiculares, porque daí em diante ele pediu a todos os pacientes que eu os examinasse (a maior parte ia por um simples prostatismo ou litíase das vias urinárias). Não era preciso tanto, mas que aprendi, aprendi. =) Depois fui mudar uma sonda urinária sub-pubiana a um senhor mas, sem querer, acabei por dar um duche aos dois internos que me estavam a ensinar. Um verdadeiro duche. Désolée.




Os franceses continuam chauvinistas e burros, nunca se sentam ao meu lado nas aulas práticas ("é estrangeira! tenho medo!") e despertam o pior que há em mim quando abrem o livro sublinhado com pelo menos cinco cores diferentes (e a régua, claro!) - tanto raparigas como rapazes - e para piorarem a situação não sabem responder à pergunta mais simples que o professor faça e ainda conseguer ser mal-educados e prepotentes! Quando se enganam a escrever qualquer coisa, sempre fita correctora. Jamais vi eu um risco! Quem me dera estar a exagerar, mas não estou. A certa altura decidi começar a sentar-me na primeira fila: não tenho o problema de ninguém se sentar ao meu lado e ser a única pessoa com um lugar vazio de cada lado, e não tenho que olhar para aquilo que parece um livro de um menino da pré-primária que começa a revelar a sua perturbação da personalidade perfeccionista. Juro que não estou a exagerar, aliás este é tema de conversa frequente entre nós Erasmus - todos reparamos no mesmo.

Será este um problema cultural? Alguma peça do puzzle que me falta para perceber este comportamento? Arriscamos-nos sempre a parecer estúpidos ou arrogantes quando dizemos que determinado comportamento é parvo - especialmente quando estamos numa cultura que não é a nossa, ou criticamos algo estrangeiro - porque a primeira hipótese deve ser quase sempre de que há algo que não conhecemos. E a minha posição é delicada, pois eu sei que "taken out of context i must seem so strange" como diz a Ani diFranco e se eu quero respeito e compreensão dos franceses, também tenho que compreender e respeitar os seus hábitos.

Mas VÁ LÁ! É ridículo, é estúpido, idiota e não faz sentido e eu odeio o que eles fazem com os livros!

Que Deus me perdoe por isso.






O meu colega de casa.

Finalmente arranjei alguém para partilhar a casa. É também erasmus em Medicina, aliás estamos juntos em alguns estágios. Mas mais importante: é um norueguês de dois metros, com dois alargadores nas orelhas de 2,5 cm, tórax totalmente tatuado e perna direita totalmente tatuada. Como é que eu sei? Da primeira vez que entrei em casa depois de ele se ter instalado ele estava a cozinhar em boxers e eu tive acesso a esta informação toda que agora vos transmito. Conhece todas as marcas se sapatos de França e de vez em quando vai a Paris às compras. Cozinha muito bem e só coisas gourmet, saudáveis e muito étnicas e eu passei a ter vergonha do que andava a comer e agora é só cozinha saudável cá em casa. Mas é outro campeonanto, só os molhos que ele compra custam mais que a minha alimentação para uma semana. E conhece Buraka Som Sistema porque eles foram a Oslo! O nosso único desentendimento é que ele começa a falar em jantar às cinco e meia da tarde.



A minha Herculina esteve doente porque eu andei a fazer ciclismo desportivo (yeah!) e puxei demasiado por ela. Mas agora já está óptima.

A dona também.

3 comentários:

  1. urologia é prática do demónio! as bolas testiculares são objectos muito pessoais! aposto que não gostavas que andassem a tocar na caixinha de presentes de ex-namorados ou na tua gaveta de roupa interior!!! (nota pessoal : na rua do alecrim há um urologista chamado Joshua. será que ele faz circuncisões?! um comentário relativamente racista, mas saudável)

    ResponderEliminar
  2. não são bolas testiculares, são bolsas!! a verdade é que nenhum dos senhores se recusou à minha presença. e vi muitos homens a chorar "não consigo fazer xixi! dói muito!".

    foi giro.

    p.s. - preservo a minha intimidade, mas não tenho problemas com a minha gaveta de roupa interior.

    ResponderEliminar
  3. Hilariante!!! Nao consigo parar de rir do inicio ao fim destas ultimos posts!! Meu Deus!!
    Beijinho enorme ja com saudades**

    ResponderEliminar